segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Lições de um professor

Sabe aquele professor, recém chegado na escola, que passa pelos corredores e gera zum zum zum?! As menininhas cochicham entre si e armam suas estratégias. E quase vira uma disputa. Umas se jogam, sem pudores. Algumas, seduzem com sutilezas. Outras, tornam-se amiguinhas, como se com paciência e armadilhas fossem atrair a inocente presa.
E ele passa a ser assunto. Ou melhor, O assunto. Carinha mais velho, em boa forma, com aquele olhar misterioso e arrebatador de homem maduro. Bobinhas garotas de 15 aninhos. Cheias de clichês mal resolvidos na cabeça. Obstinadas. Loucas, com provocantes roupas debruçadas na mesa do professor. Certas de suas atitudes de grandes mulheres. Excitantes, irresistíveis. E ele lá, no alto de sua soberba. Ao melhor estilo de não estou nem aí.
Então, tive um desses certa vez. Achava tudo tão hilário. Sim, ele tinha um certo charme. Aquele ar de segurança de fazer tremer. Mas naquela época, eu não notava muito isso. Era pra mim como todo professor senil que já passara em minha vida escolar. Tinha uma amiga que compartilhava desta visão. Estávamos entretidas demais em outras coisas que nos pareciam muito mais essenciais naquele momento. E não, nem éramos nerds.rs Só estavamos ainda presas em menininhos mais novos, ou melhor, no mesmo menino mais novo...
O fato é que aquele sujeito parecia ter cismado com nós duas.
E digo, como irritava!!!!!!!
Eram aulas de filosofia intermináveis. Começávamos com Descartes, e acabávamos em um carteado de palavras sem fim. Um novelo de verdades e inverdades teóricas. Discussões incessantes. Tudo era tema. Até pensamento de cachorro era posto em questão.
Ele dizia uma frase. A gente argumentava. E ele seguia dali em diante, apenas com frases retóricas ou uma sucessão de porquês infinita.
Qualquer coisa que outro alguém dissesse ele calava. Mas se fossemos nós...
Como irritava!!!A aula acabava e estávamos lá, os 3 ainda. Falando nada de nada, respondendo contestações sem sentido e tão significantes.
Como irritava!!!
Porque? Será? Como? E era só o que ele dizia, no alto de sua soberba.E as menininhas já iam desistindo dele. Ficávamos os 3 estancados ali, presos em pontos, em nós. Por que?!
Depois de um tempo, fui perceber que ele não era bem como os outros professores senis que mencionei. Ele me instigava. E não era pelo olhar dele, mas pelo olhar que me fizera ter. Presa num ciclo de questionamentos. Obrigava-me a pensar mais que qualquer equação matemática.
Por fim. Nos formamos.
Menininhas de corações destruídos.
Eu, menina de convicções quebradas. Perder certezas é sempre frustrante. No entanto quando se descobrem os porquês, tudo clareia. Quando percebemos que se puxarmos uma linha, desenrolamos a perfeição de um novelo, mas podemos tecer algo muito mais belo que um fio contorcido, ai vemos o real intento, de quem parecia só querer irritar.
Hoje pode parecer contradição, mas eu gostava dele. Não como uma paixonite de adolescência.O que me instiga, o que me inquieta vai sempre além do que meus olhos podem ver. Aqueles que me fazem quebrar um espelho, para ver refletir varias facetas de toda uma realidade.A estes agradeço, por terem me mostrado, beleza inestimável.

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