terça-feira, 26 de agosto de 2008

Breve êmese

Ao passo que te aproxima
Te repudia e repele
Afasta-te deste vício
Que te embebeda, te enebria
Que te entrega ao breu
E te abandona na sedução
Do esquecimento de amanhã
Suporta esta naúsea que te contagia
E faz-te arrepender da tua entrega
Com paixão
Condena teu eu-lirico
Massacra teu outro eu
E em ti é que ainda sentirás
As feridas de um suicidio
Suave, lento e saboroso

terça-feira, 4 de março de 2008

..

Aquilo que te falta,
Ofereça!
Não busques em outrem
Se não encontra em ti

À ausência de soma,
Qualquer divisão é mesquinha.
Multiplique e eleve
E então fracione

Condene a abundância,
Mas não destines escassez
A ninguém, o todo
A todos, uma parte

Não mendigue
Nem jogue esmola
Não seja obstáculo
Nem torna-te ponte

sábado, 1 de março de 2008

...

Estilhaços estão pelo chão
E fazem sangrar estes pés,
Desprotegidos e desavisados,
Nem doem, nem compadecem
Ignorantes ao espelho que quebrou

E a luz se reflete, tão bela
Lascinante, cega estes olhos
Que jamais viram além
Desta imagem refletida
Neste pedaço de areia,
Derretida e petrificada

As mãos, suaves e calejadas
Tateiam paredes,
Procuram lugar seguro
Mas nunca sentiram o perigo
De abandonar espada e escudo

Sons, respiram descompassados
Ao ritmo pulsante do peito aberto
Que bate, apanha, e não sofre
Que se encolhe dentro de si
Querendo abraçar o mundo

Palavras balbuciadas gemem a dor,
Que não se sente
Contam a vida,
Que não se vive
Falam com paixão que não arde
Nem queima, nem nada

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A toda pátria, com amor

Ame sua pátria
Acima de tudo!
Entoe seu hinos, seu canto
Seus prantos de guerra

Por terra, ar e mares
Sê um filho fiel
Jamais vire as costas
À tua mãe gentil, gentil

E por ela, morra se preciso
Teu amor, só nela se encerra
E verás que isso que pulsa
No peito varonil

Nacionalismo
Patriotismo
Como quiseres chamar

Se crê nisso, siga em frente
Peito aberto, punho cerrado, mão em fuzil

Idolatre a pequena porção
Cante os brados por continentes,
Leve liberdade aonde ela não existe
E faça prisioneiros de guerra
Honre a batalha que promete a pacificação
Jogando bombas em teus irmãos
Eleve com suor estes muros, que nos separam
Para que sejam sempre sólidos
Nação, pátria, religião

Crave a bandeira
Celebre a supremacia
Comemore soberania
E todo o discurso
Demagogo da hipocrisia

Sinta esta pátria
Contemple as estrelas de seu manto
Deleite-se em seu verde
E tenha esperança
De que tudo isso,
Este orgulho que nutre
Não é apenas semente
De algo muito maior
Que te afasta daqueles
Tão diferentes
Tão iguais...






sábado, 16 de fevereiro de 2008

FECHADO

Quando pequena, vez por outra ao passear no shopping com minha mãe, via pregado nas portas da lojas Mesbla cartaz com o seguinte dizer: FECHADA PARA BALANÇO.

Lembro-me de como eu me intrigava com aquilo. A loja toda lacrada e somente esta mensagem. Minha mãe, nem nenhum outro adulto conseguira me explicar naquela época o que "fechada para balanço" queria dizer.

Sendo breve como um ponto final, digo logo o que sucede:
Este espaço aqui encontra-se FECHADO PARA BALANÇO.
Quem sabe um dia volte a funcionar...
Ou feche de vez como a Mesbla
O fato é que, se tiveres esta curiosidade própria das crianças e perguntar "mas pq?!", não encontrarás ninguém que possa responder.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

À decepção de um amigo, com amizade

Caro amigo
Mais vale não pensar em perdas
Se paras a aparar machucados
Esqueces de olhar para os lados
Se perde em ver além

Caro amigo
Não pense que estou a aconselhar
Veja, olhe de vários modos
Analisa todos os fatos
Escuta quem já sofreu também

Caro amigo
A vida é isso mesmo, se dar
Sem querer algo em troca
E bem no fundo, retorno esperar
Entenda há tantos que te querem o bem

Caro amigo
Te ofereço nestes versos amizade
E é tudo que se pode oferecer
Não há nada que se fale
Que arranque esse teu sofrer

Caro amigo ouças com atenção
Sempre que estiveres a cair
Haverá alguém a oferecer mão

E se te curas de quem não te merece
Da a ti mesmo chance de merecer alguém

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Gotinha

Se às vezes me sinto
estranho no caminho
Lembro-me do pássaro
que deixa o ninho
Abandona a segurança,
mas aprende a voar

Sigo em frente,
chuto pedra,
piso em espinho
Olho para o lado,
nunca estou sozinho
Tem sempre alguém mais
a tropeçar

E se me perco,
ainda que num instante
Recordo em breve relance
Importante é continuar a andar

Para onde vou?
Perto ou distante
O que quer que eu alcance
A cada queda hei de levantar

E ainda que eu seja
apenas gotinha
Se tiver que ir contra o rio
Me faço promessa

Aprenderei a nadar.